Na hora do almoço

Saí do trabalho meia hora depois do início do horário de almoço. Depois de tanto garimpar, encontrei um restaurante onde a fila do self-service não me fez perder a fome. Atraída pelo aroma da comida, entrei e agarrei um prato, me situando atrás do último homem que aguardava pacientemente a sua vez de escolher o que comer. As paredes do lugar  me clamavam a atenção, com texturas complexas demais para um lugar onde os olhos da maioria dos clientes está nos pratos do dia. O homem da minha frente se deslocou, arrumando metodicamente a colherada de arroz em seu prato. Que diabos esse homem está fazendo espalhando o arroz no prato inteiro? À medida que colocava colheradas em seu prato, o desenho de um rosto se formava. O homem organizou grãos de feijão como negros cachos de cabelo, acomodou ervilhas no lugar dos olhos, transformou cenoura e beterraba em presilhas de cabelo, disfarçou pequenos pedaços de carne ao redor do rosto branco. O sorriso só chegou depois dos longos segundos da procura pela batata frita com uma concavidade alegre o suficiente para dar felicidade ao rosto que estava em suas mãos. Chegando na balança, apressou-se em checar o valor de seu prato, respirando com certo alívio ao perceber que a balança acusava nove reais.

Decidi assisti-lo de longe enquanto comia. De repente minha fome era de saber o que o homem faria com um desenho comestível em seu prato. Esperando por ele, sentada na mesa, havia uma menina – em seus 4 ou 5 anos de magreza -que fitava as texturas da parede por pura distração. Ao notar o homem com um prato na mão, a menina mostrou o desinteresse típico das meninas franzinas de sua idade. E finalmente ela pareceu ter dado conta de que havia um rosto sorrindo no prato. O prazer de reconhecer a palidez de seu rosto e seus cacheados cabelos negros ali na comida pareceu ter aberto seu sorriso e seu apetite, pois a menininha olhou para o homem com um amor diferente de todos os que eu já presenciei. O homem segurava cuidadosamente o garfo, tendo a preocupação de não desfazer a sua singela obra de arte ao retirar a primeira garfada, que estacionaria na boca pequena de sua menininha. Enquanto eles sorriam, eu fitava a cena com os olhos encharcados de ternura. Duas pequenas gotas de água quente abriam caminho e molhavam minhas bochechas, enquanto eu estava sendo hipnotizada pela mais linda demonstração de carinho do dia. A menininha mastigava empolgada enquanto o pai murmurava palavras ilegíveis, talvez sobre o quanto as presilhas de cabelo poderiam ser gostosas, desde que ela as experimentasse. Uma onda de paz me atingia lentamente enquanto eu assistia ao almoço que me deu muito mais energia do que minha própria refeição.

 Talvez as texturas não fossem a única coisa que eu iria lembrar.

 

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