Nó(s)

O tempo quente e úmido foi a principal razão para desenterrar alguns shorts e regatas do meu guarda-roupa. Com o calor desconfortável que encorpava o verão, seria quase impossível sair de casa sem algo acima dos joelhos ou sem deixar os meus braços à mostra. O colégio não faz muitas atividades no verão, o que tornou a festa imperdível para todos os estudantes. Saí de casa, sem esperar nada do destino. Nunca tive sucesso com a minha sorte. Talvez porque sempre tive expectativas que ultrapassavam o limite do real e teimavam em querer cortar a linha que separa os sonhos do mundo racional. Quando eu finalmente entreguei meu destino às mãos do futuro, tudo pareceu correr exatamente do jeito que eu um dia sonhei. De uma maneira até melhor do que nos sonhos. De uma maneira real.
Chegando no pavilhão, encontro dezenas estudantes – desde o primário até o colegial – extasiados ao verem todos os outros com o visual “verão” que, para a infelicidade de muitos, só aparece uma vez por ano. Garotas pareciam competir para descobrir qual seria a roupa mais bonita, o corpo mais saudável, o biquíni mais curto. Alguns garotos jogavam vôlei; outros apenas desfilavam seus corpos para as garotas competitivas. A área ao redor da piscina estava lotada. Achar alguém conhecido seria como procurar o Wally, mas sem ter uma visão de cima e tendo que encarar de verdade a multidão. Depois de caminhar um pouco e levar alguns empurrões, finalmente encontrei algumas pessoas da minha turma. A saudade fez com que todos sorrissem e me abraçassem ao me encontrar. Pude me distrair conversando com todos, perguntando sobre como estavam aproveitando o verão. Eu estava me divertindo e, aos poucos, tomando consciência disso – e aproveitando ainda mais.
Perdida em pensamentos, fui buscar algo para amenizar a temperatura e, distraída, eu olhava para o chão enquanto caminhava em busca de água. Me afastei um pouco da área da piscina e caminhei em direção a uma tenda próxima ao vôlei – talvez ali eu pudesse encontrar água. Enquanto fitava o chão, ouvi alguém me cumprimentar e levantei a cabeça. Talvez eu tivesse feito preces demais ao destino.
Talvez, se eu deixasse as coisas seguirem o seu rumo naturalmente, a minha vontade teria sido feita antes.
Se eu tivesse deixado de procurá-lo, ele poderia ter me procurado antes.
Um turbilhão de pensamentos invadiu a minha cabeça enquanto eu observava seu corpo – apenas os pés descalços, uma bermuda verde e um abdômen que me fez precisar ainda mais de água. Sorri quando nossos olhares se encontraram, e lembrei-me de responder ao seu abraço. Diferentemente dos outros, esse abraço não foi só meu. Senti que ele precisava de mim tanto quanto eu precisei dele por todo esse tempo. Agora que consegui domar todo o amor que me controlou, ele liberta algo dentro de si – amor? – que o faz querer que nosso enlace demore mais do que o usual. Enquanto ele dizia palavras passando seu rosto pelo meu pescoço, eu não enxerguei mais nada. Foi como se tudo que estivesse preso dentro de mim usasse aquele abraço como um livramento condicional. Aproveitei o momento e matei todo o meu desejo de tê-lo só para mim. Enquanto ele dizia coisas ao meu ouvido, o meu corpo voltava lentamente ao normal. Pude ver ao longe algumas amigas sorrindo e cochichando enquanto olhavam para nós. Sorri de volta, imaginando o que elas estariam falando de nós dois, abraçados daquela maneira. Senti que nenhum dos dois desistiria de estar perto do outro – não pelos próximos vinte minutos. Dentro da proteção que seus braços me envolviam, nós conversávamos trivialidades e nosso riso era sincero como o de crianças. Parecíamos dançar, mesmo que não houvesse música. Éramos um casal, uma dupla, um par que sabia exatamente todos os movimentos de uma coreografia feliz, sem precisar de ensaios. O casal mais bonito, sem precisar de competições. Demos um nó que seria dificilmente desatado por qualquer um dos que tentassem.
Entre sorrisos e brincadeiras com o meu cabelo, nossos olhares se encontraram pela primeira vez desde que nos envolvemos. Encostamos nossos rostos e o silêncio fez-se necessário. Palavras não eram necessárias, não quando estávamos contemplando o fato de ter o outro tão perto. Fechei os olhos e apenas desfrutei dos seus braços em volta dos meus, do seu corpo suado contra o meu.
Minha sorte atendera meus pedidos quando eu menos estava esperando. Eu não saberia se meu desejo seria realizado outra vez… Deixei que meus pensamentos dispersassem outra vez e me concentrei apenas em nosso interminável abraço.