Ensaio sobre perdas

Despedidas nunca foram parte da minha lista de prioridades. Como todo bom covarde, achei que seria esperto da minha parte se eu esperasse até me deparar com uma para saber o que fazer. Essa hora chegou e nada que pairasse em minha mente me foi útil. Busquei infinitos caminhos que iam opostos à dor, mas o fim da estrada sempre me deixava numa rua sem saída que me aprisionava ao sofrimento. Desisti de lutar e entreguei-me à sensação de vazio que tomou conta de mim.
Com a cabeça entre os joelhos e os braços enrolando as pernas, eu tentava amenizar os impactos da chegada de uma nova época – uma época em que seriam somente eu e meus pensamentos. Eu não queria acreditar que o sonho acabara. E mesmo buscando consolo em todo lugar, nada poderia me consolar além de braços fortes ao meu redor, protegendo-me de qualquer tipo de dano causado pelo lado de fora. Seríamos os dois em um só, tentando vencer as batalhas que travamos com nossa própria sorte.
Foi – e ainda é – difícil acreditar que os dias bons já se passaram e que não haverá mais braços quentes me envolvendo ou me mantendo segura. Mesmo que eu não me sentisse tão bem quanto antes nos últimos tempos e mesmo que os braços fortes já não me envolvessem mais, eu ainda me sentia tranquila. No fundo da minha mente, desbotado e quase esquecido, ainda havia algo que me fazia saber de que não me sentir tão segura quanto antes ainda não era o pior a acontecer. Em contrapartida, a ideia de que não se pode fugir dos passos largos que o tempo dá brilhava dentro de mim – um vermelho-sangue impossível de ser ignorado. Agora, ambos os pensamentos trocaram de posição: essa era a dor previsível que eu tinha a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que aprender a lidar.

Anúncios

Um novo (e delicioso) risco a correr

A tempestade passou. A brisa refrescante acaricia o meu rosto, trazendo o leve aroma do temporal que quase me devastou por completo. Não sinto mais pena de mim; minhas próprias lágrimas me ensinaram que não devo derramá-las pelo que passou. Também não me sinto fortalecida pela desgraça: dentro de mim, a fragilidade me toma por completo. Não quero ser forte e me sentir ainda mais suscetível à queda; não há nada mais interessante do que derrubar o indestrutível e assistir seu declínio. Quero abandonar a estrutura de concreto que por muito vem sido minha casa. É hora de me permitir. E intervir entre o sim e o não, que me atormentaram com suas incessantes brigas enquanto eu estive ausente de mim.
Me sinto preparada para me jogar diante do abismo. E que se danem os danos que eu sofrerei. Quero cair simplesmente porque amei, sem calcular estragos ou sem planejar recomposições imediatas. Estou pronta para desmontar outra vez o quebra cabeças e perder o tempo que for preciso para encaixar as peças em seu lugar. E depois de tudo pronto, quero desmontá-lo outra vez. E mais outra. E mais outras. Estou pronta para amar e sentir tudo o que me for de direito. Quero mãos trêmulas, boca seca, rosto corado. Quero sentir vida dentro de mim.
Meu coração não se importa mais em procurar outra vez por um lugar para ficar. Suas cicatrizes não incomodam e agora são quase imperceptíveis em meio à leveza dos novos ares. Seu único desafio é enfrentar o vazio. E por mais temporário que esse vazio seja, é impossível negar que o caminho será longo até o final de sua jornada. Agora, seu novo desejo é percorrer os mais diferentes oceanos para encontrar finalmente um porto. E ter a certeza de que nele, poderá ancorar feliz, amando plenamente outra vez.

Cumplicidade silenciosa

Sentadas à sombra exageradamente oblíqua de um sol de fim de tarde, as duas amigas compartilhavam o silêncio. Somente assim, ouvindo nada mais do que o som de sua própria mente, cada uma poderia analisar o seu problema. E torcer para que o problema da outra não fosse tão cruel quanto o seu próprio.
Caladas, as duas estudavam o próximo passo a ser dado, em ambos os caminhos. Qualquer erro e a sua imagem estaria destruída pela imperdoável voz do povo. Sem saber, as duas buscavam a saída de um labirinto construído – nos dois casos – pelos seus próprios desejos e vontades de transgressão.
Não ousavam falar. No imaginário de cada uma, a voz só afastaria as soluções, que por sua vez já eram raras. E assim permaneceram, até que a primeira delas cansou de olhar para dentro de si mesma e não encontrar nenhuma resposta para suas próprias perguntas. Automaticamente, a outra despertou e também se deu conta de que monólogos mentais só trariam ainda mais dúvidas. Levantaram-se , buscando coragem para acreditar que os problemas eram do plano real, mas que não havia um plano traçado para resolvê-los.
Despediram-se com um abraço de incentivo curto e intenso. O objetivo teria sido buscar ajuda nos sábios conselhos femininos da outra, mas o egoísmo – e o desespero – fizeram com que cada uma se desse conta de seus próprios dilemas. E no fim de tudo, o silêncio foi o melhor conselho.
Talvez seja por isso que as amizades femininas funcionem tão bem – ou não funcionem.

O mais esperado despertar

Vem. Esqueça toda essa onda de melancolia que atingiu precocemente a juventude e passe a acreditar mais em causas aparentemente perdidas. Nada de lamentações, mágoas ou falsos sorrisos para disfarçar tudo isso – ser feliz começa de dentro para fora e não há fachada que engane a tristeza que se aloja dentro de nós. Dentro de você.
E trate de parar de tentar ser alguém mais culto, porque cultura não se absorve pelo ar ou pela pele. Trata-se de um processo lentíssimo que exige anos e mais anos e é impossível adquirir cultura com três minutos de osmose virtual de conteúdo. Desista e volte a fazer as mesmas piadas sem graça que eu costumava ouvir. E rir, mesmo não encontrando chiste algum nelas.
Gosto de você assim. Você simples, você puro, você cru.
Não é preciso se incrementar com mais nada. Romances melancólicos e cultura são guarnições que não me interessam quando você é o prato principal. Quero poder aproveitar cada pedacinho de você assim, sem barreiras que ousam nos atrapalhar. Meu dever agora é esperar que você desperte da hipnose e acorde se sentindo novo, depois da enxurrada de maturidade que levará embora todos os modismos e tudo o que os outros desejam que você seja. Eu espero por você.

Não é hora de partir

Chovia continuamente naquele fim de tarde. O céu chorava uma chuva fina, própria dos dias de inverno. Lá fora, tudo parecia combinar perfeitamente com a atmosfera de partida que pairava sob seu quarto. Era hora de ir, e mais nada poderia prender-lhe. Suas raízes estavam em outro lugar, implorando para que sua viagem acabasse e ele finalmente pudesse sentir o quanto é bom estar em casa outra vez. Apesar de ser contra qualquer coisa que o amarrasse a um lugar em especial, ele não conseguiu resistir à viagem da vez, e tinha a impressão de que silenciosamente, todos conspiravam para que ele ficasse. Sorriu ao achar que poderia ser possível, mas preferiu não acreditar nisso. Balançou a cabeça como quem quer dispersar uma ideia indesejada e voltou às malas. Ele não pretendia mudar seu rumo por uma moça qualquer que conhecera em uma de suas muitas viagens. Além disso, ela também poderia não se importar tanto… entender a mente feminina não estava entre as suas habilidades.
Em sua mente, ele não poderia cogitar permanecer num lugar em que deveria estar somente de passagem. Não queria se prender a nada, em especial às pessoas. “Há vezes em que se sentir feliz não é plenamente bom” – pensava ele; e havia culpa demais nas entrelinhas de sua felicidade para que ele pudesse pensar diferente. Havia dias que seu sorriso parecia estar cortado ao meio – a outra metade do seu sorriso se perdera e não encontrara o caminho de volta. Mas o destino resolveu intervir em sua vida, e não há maneira de fugir dos fatos que o acaso nos traz.
Ele parou para um último café. Ela, por obra do destino, resolveu entrar e esperar pelo fim da chuva. E quando seus olhares se cruzaram, ela sorriu e sustentou o olhar. Ele, por sua vez, abaixou a cabeça, mas mudou de ideia e resolveu fitá-la mais um pouco. Desde que se conheceram, ele nunca esquecera o sorriso dos olhos dela. Em anos conhecendo pessoas, ele nunca imaginara que houvesse tanta verdade a ser transmitida num sorriso de olhar. Os olhos da moça faziam com que a culpa dentro dele não existisse mais. E finalmente, ele parecia ter encontrado a outra metade do seu sorriso. E de sorriso completo, ele resolveu sentar-se à mesa da moça. Ela não precisaria tentar convencê-lo a ficar, pois não havia mais razões para partir.

 

 

Contrastes

Buscar incansavelmente a perfeição, encontrá-la, ser feliz. Talvez esse fosse exatamente o plano de vida dela e de quase todos os seus amigos. Já havia coisas demais na vida dela, e parar para pensar no que fazer se sua vida atingisse o ponto máximo de felicidade não fazia parte do seu dia-a-dia. E assim a vida ia seguindo como a areia fina da praia que suavemente escapa por entre os dedos. Só a busca já era suficiente para fazê-la feliz.
E num dia comum, veio a surpresa: a tão almejada perfeição estava diante de seus olhos. Cartas de amor, paixão pela arte, charmosas tentativas de conquista: quem ela sempre sonhou estava ali. Um quadro clássico onde o rapaz se põe de joelhos para cortejar a dama, que se sente lisonjeada com as palavras românticas de seu pretendente. Mas nesse caso, o problema está na mente da dama que, apesar de ter seu ego massageado, não pensa em aceitar nenhuma das investidas do tal moço. O romantismo exagerado fez com que ela se sentisse enojada ao ouvir palavras açucaradas. E foi assim, à beira de um amor com prazo de validade eterno que ela descobriu que amor idealizado não preenche seu coração.
Depois de constatar que esse não era o destino que queria para si, a moça desistiu de ser a protagonista da cena em que seria eternamente a protagonista frágil e passou a correr atrás do real. Ela percebeu que gostava mesmo dos defeitos, dos erros e de qualquer coisa que pudesse ser o contraste perfeito com o seu comportamento delicado e com os seus anos de árduo estudo. Decidiu arriscar, atirar-se num abismo que seria a única saída para fugir do relacionamento simétrico que estara prestes a entrar. E começou, outra vez, do zero. 

Dois lados novos em folha

Escrevo no There are two sides há bastante tempo mas só agora senti vontade de mudar. Quis um layout novo, posts novos, paixões novas. E bem, aqui estou eu tentando por em prática os meus planos. Claro que vai demorar um pouco, o blog ainda está sujeito a várias mudanças antes de chegar no produto final. Não abrirei mão de algumas coisas como o nome (sempre achei que “Existem dois lados” fosse o melhor título pra expressar todos os meus textos), a imagem do vinil (acreditem, eu até tentei mas há certas coisas que só ficam bem se não mudarem) e é claro, a assinatura meio torta da autora Branca de Neve (meio-torta) no final de cada post.
Finalmente criei coragem para arquivar os posts por categorias, tags e tudo o que me for de direito. Aliás, decidi também socializar. Os posts não ficarão mais às escuras e estarei aberta a mais comentários, críticas ou o que quer que venha.
Enquanto o blog não chega ao seu destino final, estou preparada pra curtir cada fase dessa nova fase de mudanças.