Keeler and Belov

Não me basta vê-lo todos os dias ou ter apenas conversas de elevador por longas horas. Quero poder descobrir sua mente, mergulhar em seus gostos e me emaranhar em seus braços até não saber mais onde começo ou termino. Meu instinto diz que há sentimentos infinitos por trás de olhos tão fundos. Há algo que me despertará ainda mais fascínio. Se tudo parece ser tão novo e tão bom, não vejo motivos para expulsar tantas sensações diferentes. Sei dos seus pesos e sei do quanto meus ombros podem suportar. E pronto.

A cada descoberta, me sinto ainda mais envolvida e longe da entrada do imenso túnel em que entrei, tendo a impressão de que não posso mais retroceder. Nem pretendo. Não me importo em continuar caminhando, desde que você esteja a me esperar na saída. A cada passo, descubro suas minúcias, manias e preferências e me sinto cada vez mais dentro de seu espaço singular. 

Por outro lado, sinto que meus pés caminham em frente enquanto a estrada me leva automaticamente para trás, me alertando constantemente do tal fator impossível que tanto insisto em ignorar. A cada vez que sinto enormes faróis me alertando para parar exatamente no ponto que estou, sinto que o peso em meus ombros aumenta. Mas é minha escolha. Tem um pouco da minha essência nisso e não me sinto confortável pensando em abandonar a minha estrada. Em abandonar você, me esperando com o mais tímido dos seus sorrisos no fim do caminho. Mesmo indo contra a correnteza social, estou exatamente nadando a favor da minha vontade. E isso me basta. Já ponderei demais e continuar caminhando é a minha decisão final.
Saber que tenho bem menos bagagem torna-se um fato tão pesado quanto suas próprias malas, e talvez seja esse o motivo dos seus olhos serem tão mais fundos do que os meus. Há mais peso em você do que em mim. Entretanto, flutuamos num mar de possibilidades que me fez cogitar dividirmos esse peso e todas as experiências que você já teve. Quero carregar sua bagagem, suas experiências, suas histórias e o que mais for possível. Não falo em equivalência, de jeito nenhum. Sei que sempre levarei a menor parte e acabo preferindo dessa forma. Você sempre terá mais, saberá mais. E eu sempre estarei disposta a aprender.

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Nó(s)

O tempo quente e úmido foi a principal razão para desenterrar alguns shorts e regatas do meu guarda-roupa. Com o calor desconfortável que encorpava o verão, seria quase impossível sair de casa sem algo acima dos joelhos ou sem deixar os meus braços à mostra. O colégio não faz muitas atividades no verão, o que tornou a festa imperdível para todos os estudantes. Saí de casa, sem esperar nada do destino. Nunca tive sucesso com a minha sorte. Talvez porque sempre tive expectativas que ultrapassavam o limite do real e teimavam em querer cortar a linha que separa os sonhos do mundo racional. Quando eu finalmente entreguei meu destino às mãos do futuro, tudo pareceu correr exatamente do jeito que eu um dia sonhei. De uma maneira até melhor do que nos sonhos. De uma maneira real.
Chegando no pavilhão, encontro dezenas estudantes – desde o primário até o colegial – extasiados ao verem todos os outros com o visual “verão” que, para a infelicidade de muitos, só aparece uma vez por ano. Garotas pareciam competir para descobrir qual seria a roupa mais bonita, o corpo mais saudável, o biquíni mais curto. Alguns garotos jogavam vôlei; outros apenas desfilavam seus corpos para as garotas competitivas. A área ao redor da piscina estava lotada. Achar alguém conhecido seria como procurar o Wally, mas sem ter uma visão de cima e tendo que encarar de verdade a multidão. Depois de caminhar um pouco e levar alguns empurrões, finalmente encontrei algumas pessoas da minha turma. A saudade fez com que todos sorrissem e me abraçassem ao me encontrar. Pude me distrair conversando com todos, perguntando sobre como estavam aproveitando o verão. Eu estava me divertindo e, aos poucos, tomando consciência disso – e aproveitando ainda mais.
Perdida em pensamentos, fui buscar algo para amenizar a temperatura e, distraída, eu olhava para o chão enquanto caminhava em busca de água. Me afastei um pouco da área da piscina e caminhei em direção a uma tenda próxima ao vôlei – talvez ali eu pudesse encontrar água. Enquanto fitava o chão, ouvi alguém me cumprimentar e levantei a cabeça. Talvez eu tivesse feito preces demais ao destino.
Talvez, se eu deixasse as coisas seguirem o seu rumo naturalmente, a minha vontade teria sido feita antes.
Se eu tivesse deixado de procurá-lo, ele poderia ter me procurado antes.
Um turbilhão de pensamentos invadiu a minha cabeça enquanto eu observava seu corpo – apenas os pés descalços, uma bermuda verde e um abdômen que me fez precisar ainda mais de água. Sorri quando nossos olhares se encontraram, e lembrei-me de responder ao seu abraço. Diferentemente dos outros, esse abraço não foi só meu. Senti que ele precisava de mim tanto quanto eu precisei dele por todo esse tempo. Agora que consegui domar todo o amor que me controlou, ele liberta algo dentro de si – amor? – que o faz querer que nosso enlace demore mais do que o usual. Enquanto ele dizia palavras passando seu rosto pelo meu pescoço, eu não enxerguei mais nada. Foi como se tudo que estivesse preso dentro de mim usasse aquele abraço como um livramento condicional. Aproveitei o momento e matei todo o meu desejo de tê-lo só para mim. Enquanto ele dizia coisas ao meu ouvido, o meu corpo voltava lentamente ao normal. Pude ver ao longe algumas amigas sorrindo e cochichando enquanto olhavam para nós. Sorri de volta, imaginando o que elas estariam falando de nós dois, abraçados daquela maneira. Senti que nenhum dos dois desistiria de estar perto do outro – não pelos próximos vinte minutos. Dentro da proteção que seus braços me envolviam, nós conversávamos trivialidades e nosso riso era sincero como o de crianças. Parecíamos dançar, mesmo que não houvesse música. Éramos um casal, uma dupla, um par que sabia exatamente todos os movimentos de uma coreografia feliz, sem precisar de ensaios. O casal mais bonito, sem precisar de competições. Demos um nó que seria dificilmente desatado por qualquer um dos que tentassem.
Entre sorrisos e brincadeiras com o meu cabelo, nossos olhares se encontraram pela primeira vez desde que nos envolvemos. Encostamos nossos rostos e o silêncio fez-se necessário. Palavras não eram necessárias, não quando estávamos contemplando o fato de ter o outro tão perto. Fechei os olhos e apenas desfrutei dos seus braços em volta dos meus, do seu corpo suado contra o meu.
Minha sorte atendera meus pedidos quando eu menos estava esperando. Eu não saberia se meu desejo seria realizado outra vez… Deixei que meus pensamentos dispersassem outra vez e me concentrei apenas em nosso interminável abraço.

A mais adorável das desordens

Depois da tempestade de areia que soterrou todas as lembranças de tempos bons, me senti dentro de mim outra vez. Senti como se finalmente não houvesse mais poeira dos velhos sentimentos a me incomodar. Eu poderia dizer que, finalmente, toda a desordem que tomou conta de mim se fora de verdade. Voltei a amar as coisas e as pessoas que me cercavam como se todo o sofrimento nunca existisse ou como se tudo tivesse sido apagado da minha memória.
E num dia fantasiado de comum, percebi que tanto tempo insistindo para que todas as minhas lembranças também fossem colecionadas por você teve seu efeito somente agora. Me deparo com uma das memórias mais difíceis de apagar bem ali, nova em folha, trazida por você.
O que me surpreende mais foi não ter hesitado ao fazer a escolha de não voltar atrás. Não senti nostalgia, mágoa ou saudade de coisas que fiz questão de esquecer. Mais do que nunca, me sinto pronta para começar do zero outra vez. Quero seguir todos os passos do estar apaixonada, rindo e chorando quantas vezes for preciso. Já que o último romance foi remediado e não há mais vestígios dentro de mim, só me resta me submeter novamente a amar e ao amor, a mais adorável de todas as desordens.

Ensaio sobre perdas

Despedidas nunca foram parte da minha lista de prioridades. Como todo bom covarde, achei que seria esperto da minha parte se eu esperasse até me deparar com uma para saber o que fazer. Essa hora chegou e nada que pairasse em minha mente me foi útil. Busquei infinitos caminhos que iam opostos à dor, mas o fim da estrada sempre me deixava numa rua sem saída que me aprisionava ao sofrimento. Desisti de lutar e entreguei-me à sensação de vazio que tomou conta de mim.
Com a cabeça entre os joelhos e os braços enrolando as pernas, eu tentava amenizar os impactos da chegada de uma nova época – uma época em que seriam somente eu e meus pensamentos. Eu não queria acreditar que o sonho acabara. E mesmo buscando consolo em todo lugar, nada poderia me consolar além de braços fortes ao meu redor, protegendo-me de qualquer tipo de dano causado pelo lado de fora. Seríamos os dois em um só, tentando vencer as batalhas que travamos com nossa própria sorte.
Foi – e ainda é – difícil acreditar que os dias bons já se passaram e que não haverá mais braços quentes me envolvendo ou me mantendo segura. Mesmo que eu não me sentisse tão bem quanto antes nos últimos tempos e mesmo que os braços fortes já não me envolvessem mais, eu ainda me sentia tranquila. No fundo da minha mente, desbotado e quase esquecido, ainda havia algo que me fazia saber de que não me sentir tão segura quanto antes ainda não era o pior a acontecer. Em contrapartida, a ideia de que não se pode fugir dos passos largos que o tempo dá brilhava dentro de mim – um vermelho-sangue impossível de ser ignorado. Agora, ambos os pensamentos trocaram de posição: essa era a dor previsível que eu tinha a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que aprender a lidar.

Um novo (e delicioso) risco a correr

A tempestade passou. A brisa refrescante acaricia o meu rosto, trazendo o leve aroma do temporal que quase me devastou por completo. Não sinto mais pena de mim; minhas próprias lágrimas me ensinaram que não devo derramá-las pelo que passou. Também não me sinto fortalecida pela desgraça: dentro de mim, a fragilidade me toma por completo. Não quero ser forte e me sentir ainda mais suscetível à queda; não há nada mais interessante do que derrubar o indestrutível e assistir seu declínio. Quero abandonar a estrutura de concreto que por muito vem sido minha casa. É hora de me permitir. E intervir entre o sim e o não, que me atormentaram com suas incessantes brigas enquanto eu estive ausente de mim.
Me sinto preparada para me jogar diante do abismo. E que se danem os danos que eu sofrerei. Quero cair simplesmente porque amei, sem calcular estragos ou sem planejar recomposições imediatas. Estou pronta para desmontar outra vez o quebra cabeças e perder o tempo que for preciso para encaixar as peças em seu lugar. E depois de tudo pronto, quero desmontá-lo outra vez. E mais outra. E mais outras. Estou pronta para amar e sentir tudo o que me for de direito. Quero mãos trêmulas, boca seca, rosto corado. Quero sentir vida dentro de mim.
Meu coração não se importa mais em procurar outra vez por um lugar para ficar. Suas cicatrizes não incomodam e agora são quase imperceptíveis em meio à leveza dos novos ares. Seu único desafio é enfrentar o vazio. E por mais temporário que esse vazio seja, é impossível negar que o caminho será longo até o final de sua jornada. Agora, seu novo desejo é percorrer os mais diferentes oceanos para encontrar finalmente um porto. E ter a certeza de que nele, poderá ancorar feliz, amando plenamente outra vez.

Não é hora de partir

Chovia continuamente naquele fim de tarde. O céu chorava uma chuva fina, própria dos dias de inverno. Lá fora, tudo parecia combinar perfeitamente com a atmosfera de partida que pairava sob seu quarto. Era hora de ir, e mais nada poderia prender-lhe. Suas raízes estavam em outro lugar, implorando para que sua viagem acabasse e ele finalmente pudesse sentir o quanto é bom estar em casa outra vez. Apesar de ser contra qualquer coisa que o amarrasse a um lugar em especial, ele não conseguiu resistir à viagem da vez, e tinha a impressão de que silenciosamente, todos conspiravam para que ele ficasse. Sorriu ao achar que poderia ser possível, mas preferiu não acreditar nisso. Balançou a cabeça como quem quer dispersar uma ideia indesejada e voltou às malas. Ele não pretendia mudar seu rumo por uma moça qualquer que conhecera em uma de suas muitas viagens. Além disso, ela também poderia não se importar tanto… entender a mente feminina não estava entre as suas habilidades.
Em sua mente, ele não poderia cogitar permanecer num lugar em que deveria estar somente de passagem. Não queria se prender a nada, em especial às pessoas. “Há vezes em que se sentir feliz não é plenamente bom” – pensava ele; e havia culpa demais nas entrelinhas de sua felicidade para que ele pudesse pensar diferente. Havia dias que seu sorriso parecia estar cortado ao meio – a outra metade do seu sorriso se perdera e não encontrara o caminho de volta. Mas o destino resolveu intervir em sua vida, e não há maneira de fugir dos fatos que o acaso nos traz.
Ele parou para um último café. Ela, por obra do destino, resolveu entrar e esperar pelo fim da chuva. E quando seus olhares se cruzaram, ela sorriu e sustentou o olhar. Ele, por sua vez, abaixou a cabeça, mas mudou de ideia e resolveu fitá-la mais um pouco. Desde que se conheceram, ele nunca esquecera o sorriso dos olhos dela. Em anos conhecendo pessoas, ele nunca imaginara que houvesse tanta verdade a ser transmitida num sorriso de olhar. Os olhos da moça faziam com que a culpa dentro dele não existisse mais. E finalmente, ele parecia ter encontrado a outra metade do seu sorriso. E de sorriso completo, ele resolveu sentar-se à mesa da moça. Ela não precisaria tentar convencê-lo a ficar, pois não havia mais razões para partir.