Não é hora de partir

Chovia continuamente naquele fim de tarde. O céu chorava uma chuva fina, própria dos dias de inverno. Lá fora, tudo parecia combinar perfeitamente com a atmosfera de partida que pairava sob seu quarto. Era hora de ir, e mais nada poderia prender-lhe. Suas raízes estavam em outro lugar, implorando para que sua viagem acabasse e ele finalmente pudesse sentir o quanto é bom estar em casa outra vez. Apesar de ser contra qualquer coisa que o amarrasse a um lugar em especial, ele não conseguiu resistir à viagem da vez, e tinha a impressão de que silenciosamente, todos conspiravam para que ele ficasse. Sorriu ao achar que poderia ser possível, mas preferiu não acreditar nisso. Balançou a cabeça como quem quer dispersar uma ideia indesejada e voltou às malas. Ele não pretendia mudar seu rumo por uma moça qualquer que conhecera em uma de suas muitas viagens. Além disso, ela também poderia não se importar tanto… entender a mente feminina não estava entre as suas habilidades.
Em sua mente, ele não poderia cogitar permanecer num lugar em que deveria estar somente de passagem. Não queria se prender a nada, em especial às pessoas. “Há vezes em que se sentir feliz não é plenamente bom” – pensava ele; e havia culpa demais nas entrelinhas de sua felicidade para que ele pudesse pensar diferente. Havia dias que seu sorriso parecia estar cortado ao meio – a outra metade do seu sorriso se perdera e não encontrara o caminho de volta. Mas o destino resolveu intervir em sua vida, e não há maneira de fugir dos fatos que o acaso nos traz.
Ele parou para um último café. Ela, por obra do destino, resolveu entrar e esperar pelo fim da chuva. E quando seus olhares se cruzaram, ela sorriu e sustentou o olhar. Ele, por sua vez, abaixou a cabeça, mas mudou de ideia e resolveu fitá-la mais um pouco. Desde que se conheceram, ele nunca esquecera o sorriso dos olhos dela. Em anos conhecendo pessoas, ele nunca imaginara que houvesse tanta verdade a ser transmitida num sorriso de olhar. Os olhos da moça faziam com que a culpa dentro dele não existisse mais. E finalmente, ele parecia ter encontrado a outra metade do seu sorriso. E de sorriso completo, ele resolveu sentar-se à mesa da moça. Ela não precisaria tentar convencê-lo a ficar, pois não havia mais razões para partir.

 

 
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s