A dúvida

O dia estava comum. Nada de fatos marcantes ou acontecimentos que pudessem ser levados a sério – a não ser o fato de que os dois estavam juntos. Do céu caía uma chuva fina, acentuando o clima de fim de tarde. Uma comédia romântica ultrapassada prendia a atenção dos dois, mas isso não impedia os abraços – talvez fossem involuntários – e a vontade de ficarem ali, presos naquele curto espaço de tempo com a companhia do outro, muito mais do que irrecusável. Tudo estava transcorrendo muito bem, até. Não era preciso ter poderes sobrenaturais para enxergar a felicidade estampada em seus rostos serenos, cada um abrigando um largo sorriso que talvez não fosse devido ao filme e sim à simples presença do outro. Ela se sentiu tão aconchegada nos braços dele que achou conveniente fechar os olhos para se sentir ainda mais confortável e protegida. Não demorou muito para que ela dormisse como uma criança, imune de qualquer infelicidade por estar com ele. Nada mais óbvio do que sonhar com a realidade, que já era como um sonho, mas sua imaginação imprevisível conseguiu projetar o que ela nunca desejaria que acontecesse de verdade.
Mesmo abraçada a ele, ela se sentiu sozinha. Olhou ao seu redor e confirmou o que sentira há alguns segundos: pior do que ficar sem ninguém seria ficar sem ele. Em cada lugar que visitava, não havia nada. Absolutamente nada. Seu desespero foi aumentando gradativamente, por não encontrá-lo lá e por não conseguir sair do seu deserto imaginário. E finalmente a hora em que desistiu de procurá-lo e cansou de lutar contra o frio. Sentiu-se abandonada, derrotada e profundamente triste.
Não havia como não despertar depois daquela onda de preocupação. Abriu os olhos automaticamente. Na televisão, o “the end” seguido dos créditos. O sono ainda estava aparente, mas seu rosto já não era de uma expressão tranquila. E rapidamente, ela se encontrou em braços firmes, e só assim conseguiu se sentir segura – só não de seus pesadelos. Em vez de agarrá-lo com toda a sua força, preferiu não interromper seu sono leve, colocando todo o seu amor num beijo na testa. Para o fim de sua angústia, ele a abraçou ainda mais, os olhos fechados, na boca um meio sorriso. Ela preferiu não responder aos carinhos, mas permaneceu tranquila em seus braços, fitando o nada. Talvez aquele amor não fosse tão forte quanto ela pensava. Ela havia entendido tudo.

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