Fim simples

Um dia nublado, exaustivo e inquietante.
Mal sabia ela que dali em diante a sua solidão jamais seria a mesma.

Tudo parecia estar nos conformes – ou até melhor. A falta de calor em minha rotina estava ficando aceitável, até. Eis que, no mais comum dos dias, o destino resolveu colocar de volta a perfeição em meu caminho, trazendo-o de volta para os meus braços mesmo que por um curto espaço de tempo. E assim que nossos olhares se cruzaram, mantive-me elegantemente calma, esperando alguma reação precipitada do outro lado. Os olhares continuaram na mesma direção, e sem pressa, fomos diminuindo a distância – agora pequena – que nos separava. Automaticamente nossos corpos se uniram como se nós estivéssemos prestes a dançar. Pude sentir a sua pele macia sobre a minha, suas mãos procurando me enlaçar, seu rosto encontrando o meu pescoço. Nossos movimentos eram lentos, mas continham uma necessidade imensa de ter o outro por perto e que nós estávamos sabendo expressar claramente. Ao nosso redor, o silêncio reinava – a música estava na minha mente. Foi então que comecei a sentir o seu cheiro, e quando dei por mim, me encontrei em estado de transe. Apesar dos pensamentos vagos e das milhares de sensações que ocupavam minha mente, consegui me perguntar há quanto tempo eu não sentia aquele cheiro. A resposta veio de imediato: o suficiente para nunca me afastar dele. Com essa constatação, meus lábios abriram um sorriso quase que involuntariamente e puxei o ar para dentro de mim de modo que eu sentisse todo o meu corpo tomado e inebriado pelo seu cheiro. Não nos falamos durante quase toda a “dança”. A presença de nossas vozes só tornaria os nossos movimentos urgentes; a nossa sintonia era impecável a ponto de não precisarmos nos comunicar oralmente. A sua respiração era ofegante, e isso me fez pensar que a necessidade que ele tinha de me ter era muito maior e desesperadora do que a que eu tinha de tê-lo, mas isso foi descartado quando lembrei que a falta que eu sentia era muitíssimo mais aparente e gritante – discrição sentimental nunca foi o meu forte – e que talvez ele soubesse disfarçar a saudade ocupando a mente com passatempos tolos, mas que nunca iriam me tirar inteiramente dos seus pensamentos. Eu poderia – e queria – ficar presa a ele até o meu último respirar, e seus movimentos pareciam não demonstrar gosto pela ideia de se afastar de mim, não naquele momento. Sua expressão fez com que eu adiasse o surto de realidade, e então me permiti ficar com a consciência insana por mais algum tempo – o quanto ele quisesse. Faltava pouco para eu me perder em seu mundo quando algo em mim fez com que eu pensasse racionalmente e voltasse à superfície para respirar o ar da realidade. Nos separamos e nos despedimos civilizadamente com uma troca de olhares. Optei por não olhar para trás.

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