O dia do Sol

Involuntariamente, saí de casa para “levar um sol”, apesar de estar nublado. Há tempos que diziam que eu precisava sair de casa para respirar o ar do famigerado lado de fora. Fomos então a algum lugar que eu não sabia exatamente. Me afundei no banco de trás e lá fomos nós, no carro prata do papai, para lugar nenhum. Durante quase toda a viagem, me distraí escutando música e brincando com os fones de ouvido. Paramos em frente à forte luz vermelha do semáforo. E de repente a chuva começou a cair do céu cinza. Esse foi o único momento que eu desviei o meu olhar do chão: levantei delicadamente a minha cabeça para observar as gotas de chuva batendo no vidro, talvez fosse para firmar mais ainda a contradição do meu pai, de me obrigar a sair de casa num dia nublado para levar sol.
E num segundo estávamos nós dois olhando um ao outro. Talvez ele estivesse na mesma posição que eu, mas se recompôs e ficou sentado formalmente. Meu ar melancólico e minha vergonha impediram qualquer movimento, por isso fitei-o sem mover qualquer músculo. Havia um toque de curiosidade em sua expressão, – acho que mais curiosidade do que eu pensava – e eu senti que era exatamente aquilo que o mantinha olhando para mim. Aliás, seus olhos me chamaram a atenção. Eram dourados como o Sol, que não havia aparecido naquele dia – e que, aparentemente, não estava fazendo falta alguma – e pareciam estar naquele momento inteiramente interessados nos meus. Tudo nele era praticamente comum, mas havia algo de diferente que me mantinha interessada nos seus olhos cor de Sol. Acho que nada naquele instante iria desviar minha atenção. Algo me dizia que ele estava tão concentrado quanto eu, e o seu semblante sério não me deixava mentir. E inesperadamente, o semáforo acendeu uma luz verde que consegui enxergar perifericamente. E então nossos olhares ficaram dispersos, mas rapidamente se voltaram na mesma direção, como se estivéssemos nos despedindo. Sua expressão séria se derreteu e vi claramente uma tentativa sem sucesso de abrir um sorriso. Mesmo assim, sorri discretamente, mostrando que a tentativa valeu a pena, e que ele conseguiu me arrancar um sorriso de resposta. Os nossos carros se distanciaram. Tive que inclinar a cabeça para que os nossos olhares não perdessem a sintonia. Não valeu a pena. Já estávamos longe do seu simples carro preto.
Cochilei escutando o doce piano de Yann Tiersen. Não sei ao certo qual foi o destino de nossa viagem, mas só sei que fui acordada pela voz alta do meu pai, reclamando que todo o combustível havia evaporado num passe de mágica. Fechei os olhos novamente e fingi estar dormindo.
A chuva não parava. Agora, os pingos pareciam estar mais fortes do que antes. Me dei conta de que realmente não havia nenhum rastro do Sol no céu: o Sol estava preso naqueles olhos dourados. Senti que se nós nunca mais nos encontrássemos a vontade do meu pai de me levar para o lado de fora não faria mais sentido algum: O Sol estava nos olhos dourados. _apple__emote_by_aha_mccoy1

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Um comentário em “O dia do Sol

  1. daianybarros disse:

    adoro teu jeito de escrever *-*

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